Apesar de serem maioria da população, mais escolarizadas e com maior presença na internet e no comando dos lares, as mulheres do Ceará ainda enfrentam profundas desigualdades de renda em relação aos homens. É o que revela o Ipece/Informe Nº 267 – Março/2025, que traçou um retrato detalhado da mulher cearense em 2023, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com relação à renda domiciliar per capita no Ceará, a da mulher é de R$ 1.107,45, quando ela é a referência, sendo menor frente aos domicílios chefiados por homens (R$ 1.497,04). Já em domicílios sem acesso a transferências de renda, o rendimento das mulheres cai para R$ 966,15, contra R$ 1.394,46 dos homens — uma diferença de mais de 44%. Já com a presença de programas sociais, essa desigualdade se atenua, mas persiste: R$ 428,31 para mulheres contra R$ 389,59 para homens.
O estudo também revela que o Ceará tem atualmente cerca de 256 mil mulheres a mais do que homens, são 4,7 milhões de mulheres (51,4%) contra 4,5 milhões de homens (48,6%). As mulheres apresentam menor taxa de analfabetismo e maior escolaridade: entre aquelas com 25 anos ou mais, o nível de instrução já supera o dos homens.
Além disso, são elas que mais acessam a internet e que assumem, em maior proporção, o papel de referência nos domicílios. A taxa de analfabetismo das mulheres no Ceará foi de 9,0%, inferior à dos homens (14,1%). O dado corrobora com outro indicador: o número médio de anos de estudo das mulheres, de 9,1 anos de estudo, também é superior ao dos homens (8,3).
Desigualdade
O peso da desigualdade social recai desproporcionalmente sobre os ombros femininos. Entre os 20% mais pobres, 61,4% dos domicílios são liderados por mulheres, 22,8 pontos percentuais a mais que os homens. A pobreza atinge mais os lares chefiados por elas: 10,5% contra 7,9%. E, embora as mulheres estejam mais à frente dos lares, são justamente os domicílios masculinos que registram maior prevalência de segurança alimentar (70,5%).
“Apesar das mulheres terem mais escolaridade e estarem à frente dos lares, elas continuam recebendo menor remuneração. Políticas voltadas para mulheres em situação de vulnerabilidade são de extrema importância”, alerta Raquel Sales, assessora técnica da Diretoria de Estudos Sociais (Disoc) do Ipece.
Formação
De acordo com especialistas, a concentração de mulheres em setores historicamente menos valorizados contribui para a diferença salarial. No Ceará, 78% das mulheres com ensino superior estão formadas em áreas como educação, saúde, bem-estar e serviços sociais. Entre os homens, 71% estão em cursos ligados às ciências exatas.
Essa divisão é associada ao fenômeno conhecido como segregação ocupacional, que afasta as mulheres de áreas com maior remuneração. Entre elas: ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
Dupla jornada
Além da formação, a sobrecarga de responsabilidades domésticas também impacta a inserção e permanência das mulheres no mercado de trabalho. No Ceará, a liderança feminina em lares monoparentais representa um fator adicional de limitação profissional. Dados do Censo indicam que mulheres tendem a buscar empregos mais próximos de casa, com deslocamentos médios entre seis e 30 minutos, como forma de conciliar trabalho e cuidados familiares.
Dessa forma, essa realidade leva muitas trabalhadoras a optarem por ocupações mais flexíveis. Porém, com menor remuneração e estabilidade.

