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Preço do cacau caiu, mas consumidor de chocolate ainda não sente no bolso

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Quem vai comprar chocolate fica se perguntando por que continua pagando mais caro se o preço internacional do cacau registra uma forte queda desde o ano passado.

Depois de triplicar de preço e atingir a marca inédita de US$ 12 mil (R$ 62,4 mil) a tonelada, em abril de 2024, o cacau retornou ao patamar anterior, abaixo de US$ 4 mil, mas quem esperava uma redução também no ponto de venda se decepcionou.

Na Páscoa, celebrada no dia 5 de abril, os preços dos chocolates estavam 24,9% maiores em relação ao ano anterior, segundo o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15).

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab), que tem entre os associados algumas das maiores marcas brasileiras, como Nestlé, Arcor e Hershey’s, a produção de chocolates passou de 806 mil toneladas, em 2024, para 814 mil toneladas, em 2025, alta de 0,99%. Os dados de produção se referem ao ano passado porque a fabricação começa 10 meses antes.

Jaime Recena, presidente da Abicab, explica que a indústria trabalha com muita antecedência, fazendo com que a oscilação da matéria-prima demore a chegar ao bolso do consumidor. Mas esse não é o único fator que entra na conta.

O preço do chocolate, emenda Recena, nunca chegou a triplicar, como aconteceu com o cacau, porque os fabricantes reduziram suas margens de lucro e, ao mesmo tempo, adotaram estratégias para depender menos da matéria-prima.

“Cada indústria buscou alternativas para não repassar totalmente o aumento. Muitas criaram receitas novas e introduziram outros elementos aos seus produtos, como biscoitos”, resume.

É fato que a indústria de chocolate comprou menos cacau em 2025. Segundo a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), as empresas moageiras amargaram uma retração de 14,6%, em comparação ao ano anterior —são elas que transformam as amêndoas em matéria-prima para o chocolate.

Fundador da Gencau Amazônia, moageira localizada no Pará, Ernesto Neugebauer processa 12 mil toneladas de cacau por ano e conta como seus clientes enfrentaram a crise.

“Quando o preço bateu recorde, as indústrias se adaptaram e aumentaram o uso de matérias-primas alternativas. Agora o preço caiu, mas uma indústria não pode ficar mudando formulações o tempo todo.”

Quem não produz chocolate, mas o utiliza como ingrediente, também foi obrigado a se adaptar. Clayton Brás e Nina de Paula, sócios da confeitaria Made by Nina, em São Paulo, usam chocolate belga Callebaut e mexeram nas receitas depois que o pacote de 2 quilos passou de R$ 180 para R$ 280.

Para rechear os 200 bolos vendidos mensalmente, a dupla trocou parte do chocolate por doce de leite e de frutas. “Aumentei os preços em 10%, reduzindo minha margem, e tento convencer o cliente a experimentar novos sabores, onde posso lucrar mais”, explica Brás.

Agora, o empresário está pagando R$ 249 pelo mesmo pacote de chocolate —ainda bem acima do patamar de dois anos atrás. Por enquanto, ele diz, a tabela fica como está.

A mesma adaptação ocorre no segmento dos chocolates artesanais, que trabalha com alta concentração de cacau. Ernesto Neugebauer, que também é dono da Danke Chocolates, conta que a produção encolheu 30% durante o pico do preço do cacau.

“Somos uma indústria fiel às nossas formulações e não podíamos aumentar os preços em três vezes, como aconteceu com o cacau. O consumidor não aceitaria.”

A barra de chocolate Danke 70% cacau, com 90 gramas, que custava R$ 14,90 em 2024, hoje pode ser comprada a R$ 21,90. “Trabalhamos no vermelho por mais de um ano. Só na última Páscoa consegui comprar cacau a preços mais civilizados”, revela.

O que os chocólatras podem esperar para os próximos meses? Sócios da Nugali, indústria de Pomerode (SC) que produz 240 toneladas de chocolate por ano, Maitê Lang e Ivan Blumenschein não arriscam uma previsão.

“Essa falta de previsibilidade talvez seja o pior cenário para todos. O preço do cacau ainda está muito volátil, continua havendo muita especulação, e qualquer previsão seria jogo de adivinhação”, diz Blumenschein.

Vice-presidente da Associação Bean to Bar Brasil, membro da diretoria da Abicab e sócio da Baianí Chocolates, Tuta Aquino também fala em instabilidade permanente. “O impacto daquela grande subida do preço, em 2024, trouxe um alerta de que os desequilíbrios podem ser contínuos.”

Neugebauer é um pouco mais otimista. “Acho que as flutuações serão menores daqui para frente. Para o consumidor, o pior já passou, mas os preços subiram de elevador e vão descer de escada”, resume.

Marco Lessa, criador da feira Chocolat Festival, que já teve 44 edições dentro e fora do Brasil, vai na mesma direção. “Acho que o preço não volta aos US$ 12 mil. Para mim, vai estabilizar nos US$ 3.000, um patamar histórico que é bom para a indústria, mas ruim para o produtor”, arrisca.

Para Lessa, a Lei 15.404/2026, já sancionada, que define percentuais mínimos de cacau nos produtos e como devem ser rotulados, não vai alterar o mercado. Na opinião dele, a legislação não tem poder para provocar mudanças na fórmula dos produtos. “O consumidor comum já estava acostumado e vai continuar comprando outras coisas como se fosse chocolate”, acredita.

Fonte: FolhaPress

Kátia Alves

Editora-chefe do Contexto Notícias é jornalista formada pela Unifanor em 2006, pós-graduada pela Unichristus em MBA em Gerência de Marketing, Assessoria de Comunicação pela Estácio e Língua Portuguesa pela UniAteneu. Foi jornalista da TV Verdes Mares, TV Fortaleza e TV Ceará. Passou pelos site Pirambu News (@pirambunews), Mídia (@somosmidia) e Conexão 085 (@conexao085oficial). Passou pelas assessorias do Instituto Isa Magalhães e Superintendência Federal de Agricultura.

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