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Tratamento da tuberculose avança na ciência, mas trava na desigualdade social

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Enquanto a ciência avança em esquemas mais curtos de tratamento da tuberculose, novas vacinas e estratégias clínicas mais eficazes, a eliminação da doença continuará fora de alcance sem o enfrentamento das desigualdades e dos determinantes sociais.

Essa discussão, liderada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), foi tema central dos debates do maior congresso mundial sobre saúde pulmonar e tuberculose, organizado pela The Union (International Union Against Tuberculosis and Lung Disease), realizado em Copenhague, na Dinamarca.

A tuberculose segue como a principal causa de morte por um único agente infeccioso no mundo. Em 2024, 10,7 milhões de pessoas adoeceram e 1,23 milhão morreram em decorrência da doença, segundo a OMS. No Brasil, foram registrados 85.936 casos novos, com mais de 6 mil mortes.

De acordo com pesquisadores, é fundamental que haja uma mudança no enfrentamento da doença, com o fortalecimento do papel das políticas sociais na adesão ao tratamento e na redução de casos.

“Não é só o efeito colateral do remédio que leva ao abandono. As pessoas interrompem o tratamento porque não têm o que comer ou dinheiro para pagar o transporte até a unidade de saúde”, afirma a pesquisadora brasileira Melisane Lima, especialista em proteção social associada ao controle da tuberculose, que apresentou um trabalho no congresso.

Tratamento da tuberculose avança na ciência, mas trava na desigualdade  social | Jornal de Brasília
Foto: Jhonantan Cantarelle/Agência Saúde-DF

O abandono do tratamento, além de comprometer a cura individual, mantém a transmissão ativa da doença e favorece o surgimento de cepas resistentes. Em sua pesquisa, Melisane desenvolveu e validou uma matriz de indicadores de proteção social para pessoas com tuberculose no Brasil.

O instrumento avalia se os pacientes conseguem acessar direitos ligados à saúde, assistência social e previdência, além da articulação entre políticas públicas. A proposta já foi citada em relatórios da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e em guias da OMS.

Segundo a pesquisadora, a ferramenta pode ser utilizada por gestores públicos e pela sociedade civil para orientar políticas públicas. “Ela ajuda a planejar, monitorar e avaliar ações, respeitando as diferenças entre municípios e países”, explica.

No Brasil, as experiências ainda são desiguais, mas algumas iniciativas vêm ganhando destaque. Um dos exemplos está no Rio de Janeiro, que implementou um projeto de cartão-alimentação para pessoas em tratamento de tuberculose.

O benefício, atualmente em torno de R$ 430 mensais, permite a compra de alimentos e já apresenta resultados preliminares positivos na redução do abandono do tratamento. Desde setembro, 7.459 pessoas foram cadastradas, e atualmente 3.231 pacientes recebem o auxílio.

Além das políticas específicas para a tuberculose, programas mais amplos de transferência de renda também demonstram impacto positivo. Estudos indicam que o Bolsa Família contribui para aumentar a adesão ao tratamento e reduzir mortes pela doença.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) é outro instrumento relevante. “São políticas sensíveis à tuberculose, mesmo que não tenham a doença como critério direto”, explica Melisane.

Muitos desses direitos, no entanto, são desconhecidos pelos próprios pacientes. Benefícios previdenciários, transporte gratuito e políticas de moradia fazem parte de um arcabouço legal pouco debatido no campo da saúde. Essa invisibilidade pesa ainda mais sobre grupos vulneráveis, como pessoas em situação de rua, privadas de liberdade, vivendo com HIV e imigrantes.

Tratamento da tuberculose avança na ciência, mas trava na desigualdade  social | Liberal
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O estigma também permanece como obstáculo. “Muita gente acha que a tuberculose não existe mais ou que não tem cura”, diz Melisane. “Mas, para ter tuberculose, basta respirar.”

É nessa interseção entre inovação biomédica e política social que o Rio de Janeiro tem estruturado sua resposta à doença, segundo o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz. Ele afirma que a estratégia combina tecnologia, atenção primária e ações intersetoriais.

Um dos eixos é um sistema eletrônico que transformou a ficha de notificação em um prontuário online integrado. “Ela vai sendo preenchida ao longo do tempo, por várias unidades”, explica. A ferramenta permite acompanhar exames, retirada de medicamentos e identificar precocemente o risco de abandono, além de falhas na investigação de contactantes.

Os indicadores refletem a melhora operacional. A proporção de casos novos com confirmação laboratorial cresceu 2,3% entre 2023 e 2024 e acumula alta de 32,6% desde 2012. A testagem para HIV entre os casos novos chegou a 95,5% em 2024. Já a proporção de contatos examinados aumentou 4,2% no último ano.

Outro foco central são as pessoas privadas de liberdade. A Prefeitura do Rio de Janeiro assumiu a atenção primária nos presídios da capital fluminense, acompanhando cerca de 30 mil detentos. “Um de cada dez casos de tuberculose do estado sai de dentro do sistema prisional”, afirma Soranz.

Com equipes de saúde da família atuando nas unidades, houve aumento no diagnóstico e nas taxas de cura, além de maior controle dos retratamentos.

Os dados mais recentes indicam queda gradual na incidência da doença na cidade: de 7.024 casos em 2022 para 6.774 em 2024. Ainda assim, Soranz reconhece os limites de um avanço exclusivamente biomédico. “Não adianta investir só em novas tecnologias de diagnóstico se não olhar para os determinantes sociais”, afirma. “Sem enfrentar pobreza, fome e exclusão, o avanço não se sustenta.”

Durante o congresso em Copenhague, foi divulgada uma análise global mostrando como os países são afetados de forma desproporcional pela tuberculose. A taxa de notificação da doença varia de 25 casos por 100 mil habitantes em países de alta renda a 150 por 100 mil em países de média e baixa renda.

Na avaliação de Kobto Koura, diretor de tuberculose da The Union, os dados indicam a necessidade de maior equidade no investimento em abordagens baseadas em evidências, como a busca ativa de casos, o fortalecimento dos sistemas de saúde e o enfrentamento dos determinantes sociais que impulsionam a transmissão e a progressão da doença.

“Isso inclui o combate à pobreza, a melhoria da nutrição, a redução do tabagismo e do abuso do álcool, o controle de comorbidades como HIV e diabetes e o fortalecimento da educação em saúde pública”, afirma.

De acordo com o Relatório Global da Tuberculose 2025, da OMS, 89% das pessoas que desenvolveram tuberculose no Brasil foram oficialmente diagnosticadas e notificadas. Entre os países de alta carga da doença, o Brasil lidera o Service Coverage Index (Índice de Cobertura de Serviços), com mais de 80%, indicador que mede acesso e qualidade dos serviços de saúde com base em 14 parâmetros, incluindo a cobertura do tratamento da tuberculose.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que atua no fortalecimento de iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Fonte: Folhapress

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